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O preço silencioso de dar conta de tudo

14 de abr.
3 min de leitura

Você provavelmente já ouviu isso sobre alguém ou sobre você mesmo. 

"Ele sempre deu conta." 

"Nunca precisou de nada." 

"Desde pequeno, já era assim." 


E a pessoa que diz isso fala com orgulho. Como se dar conta de tudo fosse uma qualidade, um dom, algo extraordinário que você nasceu tendo. Mas, e se não for?

Para que o extraordinário de dar conta de tudo aconteça, existiu uma criança que aprendeu muito cedo que algumas emoções não são bem-vindas, que chorar demais incomoda, que pedir cansa, que ter medo assusta os adultos ao redor e eles se afastam da criança ( e adultos assustados são adultos indisponíveis, e adultos indisponíveis são um perigo que o sistema nervoso de uma criança não consegue suportar). Então ela aprendeu a não chorar tanto, a não pedir, a parecer bem.

E quanto mais ela aprende, mais os adultos a elogiam. 

"Que madura." 

"Que independente." 

"Não dá trabalho nenhum."


O elogio vira combustível. A adaptação vira identidade. E um dia,  sem que ninguém perceba, sem que ela perceba, dar conta de tudo deixa de ser uma estratégia e passa a ser quem ela é.

Gabor Maté, médico e pesquisador do trauma, coloca uma questão que nunca mais saiu da minha cabeça: o problema não é o que aconteceu com você, mas o que aconteceu dentro de você como resultado disso. Ou seja, como você reagiu ao acontecimento, como isso reverberou em você.

A criança que aprendeu a dar conta de tudo não sofreu, necessariamente, um trauma óbvio. Não precisa ter tido uma infância de filme dramático, uma infância de abusos (de todas as qualidades - físicos, psicológicos, sexuais…). Às vezes o ambiente era simplesmente exigente demais para uma criança pequena. Os pais trabalhavam muito. Havia uma doença na família. Um irmão precisava de mais atenção. A situação financeira era apertada. Ninguém fez nada de “errado”, mas ainda assim, o sistema nervoso daquela criança aprendeu que precisar era perigoso. E esse aprendizado não fica na infância, ele vem junto!


Na vida adulta, essa pessoa é frequentemente admirada. Ela entrega tudo no prazo. Cuida dos filhos, do trabalho, da casa, dos pais que estão envelhecendo, das amigas que estão em crise. Resolve. Organiza. Aparece. E quando alguém pergunta como ela está, ela diz "bem" antes mesmo de pensar na resposta. Porque dar conta de tudo não é só o que ela faz. É o único jeito que ela sabe e aprendeu a existir.


O preço disso raramente aparece de forma dramática. Não é um colapso no meio da rua. É uma fadiga que não passa com descanso. É a sensação de vazio num domingo à tarde sem nenhum motivo aparente. É perceber que você se emociona mais com histórias de filmes do que com a sua própria vida. É não saber responder quando alguém pergunta o que você quer de verdade, não o que você precisa fazer. É estar funcional e, ao mesmo tempo, profundamente ausente de si mesma.

A psicologia chama isso de hiperresponsabilidade. De adultização precoce. De silenciamento emocional. Mas antes de qualquer nome técnico, é importante nomear o que é: foi uma solução inteligente para um problema real, uma adaptação possível para um acontecimento/problema potencialmente traumático. A criança não falhou. Ela sobreviveu usando o que tinha disponível.

O problema não é a estratégia que ela criou. O problema é quando essa estratégia nunca mais foi atualizada, porque ninguém disse a ela que agora era seguro precisar.


Não existe uma fórmula para desfazer isso. E esse texto não vai te oferecer cinco passos para parar de dar conta de tudo, porque isso não é um hábito ruim. É uma estrutura inteira de sobrevivência que foi construída ao longo de anos e que precisa, devagar, com segurança, ser reconhecida antes de ser transformada. Se anos foram gastos para estruturar essa forma de sobrevivência, serão também anos para desconstruir e reconstruir novas estruturas (inclusive físicas - novas trilhas neurais).


O primeiro passo, talvez, seja só esse: reconhecer que o preço existe. Que o cansaço que você sente não é fraqueza. Que o vazio não é ingratidão. Que você não "é assim.", você aprendeu a ser assim! E tudo que foi aprendido pode, com tempo e cuidado, ser revisitado.


A conta chegou! Não para te cobrar, e sim para te avisar que você pode, finalmente,

parar de pagar!

Esse preço, você não precisa mais pagar!
Esse preço, você não precisa mais pagar!

 
 
 

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