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O preço silencioso de dar conta de tudo

Você provavelmente já ouviu isso sobre alguém ou sobre você mesmo. 

"Ele sempre deu conta." 

"Nunca precisou de nada." 

"Desde pequeno, já era assim." 


E a pessoa que diz isso fala com orgulho. Como se dar conta de tudo fosse uma qualidade, um dom, algo extraordinário que você nasceu tendo. Mas, e se não for?

Para que o extraordinário de dar conta de tudo aconteça, existiu uma criança que aprendeu muito cedo que algumas emoções não são bem-vindas, que chorar demais incomoda, que pedir cansa, que ter medo assusta os adultos ao redor e eles se afastam da criança ( e adultos assustados são adultos indisponíveis, e adultos indisponíveis são um perigo que o sistema nervoso de uma criança não consegue suportar). Então ela aprendeu a não chorar tanto, a não pedir, a parecer bem.

E quanto mais ela aprende, mais os adultos a elogiam. 

"Que madura." 

"Que independente." 

"Não dá trabalho nenhum."


O elogio vira combustível. A adaptação vira identidade. E um dia,  sem que ninguém perceba, sem que ela perceba, dar conta de tudo deixa de ser uma estratégia e passa a ser quem ela é.

Gabor Maté, médico e pesquisador do trauma, coloca uma questão que nunca mais saiu da minha cabeça: o problema não é o que aconteceu com você, mas o que aconteceu dentro de você como resultado disso. Ou seja, como você reagiu ao acontecimento, como isso reverberou em você.

A criança que aprendeu a dar conta de tudo não sofreu, necessariamente, um trauma óbvio. Não precisa ter tido uma infância de filme dramático, uma infância de abusos (de todas as qualidades - físicos, psicológicos, sexuais…). Às vezes o ambiente era simplesmente exigente demais para uma criança pequena. Os pais trabalhavam muito. Havia uma doença na família. Um irmão precisava de mais atenção. A situação financeira era apertada. Ninguém fez nada de “errado”, mas ainda assim, o sistema nervoso daquela criança aprendeu que precisar era perigoso. E esse aprendizado não fica na infância, ele vem junto!


Na vida adulta, essa pessoa é frequentemente admirada. Ela entrega tudo no prazo. Cuida dos filhos, do trabalho, da casa, dos pais que estão envelhecendo, das amigas que estão em crise. Resolve. Organiza. Aparece. E quando alguém pergunta como ela está, ela diz "bem" antes mesmo de pensar na resposta. Porque dar conta de tudo não é só o que ela faz. É o único jeito que ela sabe e aprendeu a existir.


O preço disso raramente aparece de forma dramática. Não é um colapso no meio da rua. É uma fadiga que não passa com descanso. É a sensação de vazio num domingo à tarde sem nenhum motivo aparente. É perceber que você se emociona mais com histórias de filmes do que com a sua própria vida. É não saber responder quando alguém pergunta o que você quer de verdade, não o que você precisa fazer. É estar funcional e, ao mesmo tempo, profundamente ausente de si mesma.

A psicologia chama isso de hiperresponsabilidade. De adultização precoce. De silenciamento emocional. Mas antes de qualquer nome técnico, é importante nomear o que é: foi uma solução inteligente para um problema real, uma adaptação possível para um acontecimento/problema potencialmente traumático. A criança não falhou. Ela sobreviveu usando o que tinha disponível.

O problema não é a estratégia que ela criou. O problema é quando essa estratégia nunca mais foi atualizada, porque ninguém disse a ela que agora era seguro precisar.


Não existe uma fórmula para desfazer isso. E esse texto não vai te oferecer cinco passos para parar de dar conta de tudo, porque isso não é um hábito ruim. É uma estrutura inteira de sobrevivência que foi construída ao longo de anos e que precisa, devagar, com segurança, ser reconhecida antes de ser transformada. Se anos foram gastos para estruturar essa forma de sobrevivência, serão também anos para desconstruir e reconstruir novas estruturas (inclusive físicas - novas trilhas neurais).


O primeiro passo, talvez, seja só esse: reconhecer que o preço existe. Que o cansaço que você sente não é fraqueza. Que o vazio não é ingratidão. Que você não "é assim.", você aprendeu a ser assim! E tudo que foi aprendido pode, com tempo e cuidado, ser revisitado.


A conta chegou! Não para te cobrar, e sim para te avisar que você pode, finalmente,

parar de pagar!

Esse preço, você não precisa mais pagar!
Esse preço, você não precisa mais pagar!

 
 
 

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