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O sistema nervoso não sabe que o perigo passou


Você já reagiu de um jeito que não queria?

Explodiu quando queria ficar calma, ou travou quando queria falar, ou até mesmo fugiu quando queria ficar? Se disse sim quando queria dizer não e só percebeu depois, quando o momento já havia passado e o arrependimento chegou no lugar, e no final se perguntou: 

por que eu sempre faço isso?

A resposta honesta não está na falta de força de vontade, nem mesmo no caráter ou em você ser fraca, imatura ou "do jeito errado." Está no sistema nervoso que está fazendo exatamente o que aprendeu a fazer, e que ainda não sabe que o perigo já passou.


O que é a Teoria Polivagal , sem complicar

Stephen Porges, neurocientista americano, desenvolveu a Teoria Polivagal a partir de uma pergunta simples: por que pessoas que viveram experiências difíceis reagem de formas que parecem irracionais mesmo quando estão, objetivamente, em segurança?

A resposta está na forma como o sistema nervoso autônomo funciona. Ele tem três estados principais, e eles não são escolhas, são respostas automáticas, pré-verbais, muito mais antigas do que o pensamento consciente.

O primeiro estado é o de segurança e conexão e ele se manifesta quando o sistema nervoso avalia que o ambiente é seguro, ele abre espaço para presença, para vínculo, para criatividade, para aprendizagem. É o estado onde a vida acontece de verdade.

O segundo é o de luta ou fuga, onde diante de uma ameaça percebida, o sistema nervoso acelera, o coração dispara, os músculos tensionam, o foco se estreita. O corpo está pronto para agir.

O terceiro é o de imobilização ou congelamento. Este é quando a ameaça é grande demais e não há saída possível, o sistema nervoso desliga, dissocia, entorpece, aquela sensação de sair do corpo, de não estar presente. É a resposta mais antiga e mais extrema, e a mais difícil de sair.

O que Porges descobriu é que o sistema nervoso não avalia o perigo com base na realidade objetiva. Ele avalia com base no que aprendeu com base em padrões do passado, em experiências que deixaram uma marca tão profunda que o corpo continua reagindo a elas mesmo quando a situação mudou completamente.

Isso tem um nome: neurocepção, ou seja, a avaliação inconsciente de segurança ou ameaça que acontece antes de qualquer pensamento consciente, antes de você decidir qualquer coisa, seu sistema nervoso já decidiu.


Por que isso importa para quem viveu experiências difíceis

Uma criança que cresceu num ambiente imprevisível, onde o perigo podia aparecer a qualquer momento, onde o adulto que deveria proteger era também a fonte do medo, essa criança desenvolveu um sistema nervoso calibrado para a ameaça.

Não por escolha, mas por sobrevivência.

O sistema nervoso daquela criança aprendeu: 


Relaxar é perigoso

Confiar é perigoso. 

Ser visto é perigoso. 

Precisar é perigoso.


E esse aprendizado não fica na infância, ele vem acoplado, incorporado ao corpo, nas reações automáticas, nos padrões que aparecem nos relacionamentos, no trabalho, na forma de receber cuidado.

O adulto que foi essa criança pode estar, hoje, numa situação objetivamente segura (uma relação amorosa estável, um ambiente de trabalho saudável, amigos confiáveis), e ainda assim o sistema nervoso dispara ainda assim o corpo trava, ainda assim a reação chega antes do pensamento. Não porque algo está errado com essa pessoa, e sim porque o sistema nervoso ainda está resolvendo uma equação antiga e que ninguém avisou a ele que a situação mudou.


O que isso tem a ver com as crianças que você cuida

Aqui é onde tudo se encontra! Isso não é só sobre você.

A criança que explode em sala de aula sem motivo aparente, que congela quando é chamada para responder, que não consegue se concentrar, que reage de forma desproporcional a situações pequenas, que parece sempre em alerta, sempre na ponta dos pés, sempre pronta para o pior… Essa criança não está sendo difícil, ela está sendo seu sistema nervoso.

E um sistema nervoso que aprendeu que o mundo não é seguro não aprende matemática, não aprende leitura, não aprende regras de convivência… não porque não quer, mas porque aprendizagem só acontece no estado de segurança, e segurança é exatamente o que esse sistema nervoso ainda não encontrou.

O que o adulto ao redor faz nesse momento importa mais do que qualquer conteúdo curricular. A presença regulada (calma, previsível, consistente) de um adulto é o que começa a ensinar ao sistema nervoso daquela criança que talvez seja seguro baixar a guarda.

Isso tem nome também: corregulação: a capacidade de um sistema nervoso regulado ajudar a regular outro, não com palavras, e sim com presença. E isso só é possível quando o adulto conhece o próprio sistema nervoso, que passa a reconhecer seus próprios estados, e assim, consegue, diante do caos da criança, não entrar em colapso junto.

Cuidar de quem cuida não é luxo, é estratégia de proteção.


Então o que fazer com isso?

Infelizmente, não existe botão de reset!

O sistema nervoso não muda por força de vontade, ele só muda por experiência repetida de segurança, e isso leva tempo.

Mas existem primeiros passos que podem ser dados agora!

Reconhecer o estado. Antes de mudar qualquer coisa, é preciso notar. Estou em luta? Em fuga? Em congelamento? O sistema nervoso que é observado já começa a se regular.

Nomear para a criança. "Eu vejo que seu corpo está acelerado agora." "Parece que você travou. Faz sentido." Nomear o estado da criança sem julgamento é um dos atos mais reguladores que um adulto pode oferecer.

Criar previsibilidade. O sistema nervoso que viveu em ambiente caótico se regula, ao longo do tempo, através da rotina, da consistência, da previsibilidade. Saber o que esperar é, para esse sistema nervoso, uma forma de segurança.

Buscar suporte. O processamento do trauma pessoal ou de uma criança precisa de acompanhamento especializado. Reconhecer isso não é fraqueza, é o ato mais inteligente que existe.


Uma última coisa

Se você se reconheceu nesse texto, nas reações que chegam antes do pensamento, nos estados que parecem não ter controle, na sensação de que o perigo nunca passa de verdade, saiba que isso faz sentido.

O seu sistema nervoso não está quebrado, ele está funcionando exatamente como aprendeu. E o que foi aprendido pode, com tempo, com segurança e com suporte, ser atualizado.

O perigo passou. Talvez seu corpo ainda não sabe. Mas agora você pode ensinar a ele, e ele está pronto para aprender.


E essa aprendizagem começa quando alguém, às vezes você mesma,

decide que é seguro começar.


 
 
 

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