O vazio que vem de dentro
- Jhenny Pacheco

- 23 de jun.
- 3 min de leitura

Existe um tipo de vazio que é difícil de explicar.
Não é exatamente tristeza porque quando estamos tristes, geralmente sabemos por quê. Houve uma perda, uma decepção, uma despedida.
Também não é solidão porque às vezes ele aparece justamente quando estamos cercados de pessoas que nos amam.
É uma sensação mais… silenciosa.
Como chegar ao final de um objetivo que você perseguiu durante anos e perceber que a paz que imaginava não veio junto.
Como olhar para a própria vida e reconhecer que existem motivos para agradecer, mas ainda assim sentir que alguma coisa continua faltando.
E talvez a parte mais difícil seja essa: não saber exatamente o que está faltando.
Durante muito tempo eu achei que esse vazio significava que eu precisava conquistar mais alguma coisa, mais reconhecimento, mais estabilidade, mais segurança, mais respostas.
Mas hoje penso diferente.
Hoje acredito que, muitas vezes, o que sentimos como vazio não é a falta de algo que nunca tivemos, mas a falta de partes de nós mesmos que aprendemos a deixar para trás.
Porque ninguém nasce desconectado de si.
Uma criança pequena sabe quando está feliz, sabe quando está assustada, sabe quando algo machuca, sabe quando precisa de colo, ela não questiona se tem o direito de sentir o que sente porque ela simplesmente sente.
Mas crescer também significa aprender sobre pertencimento.
E, às vezes, aprendemos que algumas partes de nós parecem não caber nos lugares onde precisamos ser amados.
Talvez fosse a sensibilidade, talvez fosse a raiva, talvez fossem as lágrimas, talvez fosse a espontaneidade, talvez fossem os sonhos.
Ninguém precisa dizer explicitamente: "não seja assim".
Muitas vezes basta o olhar que desaprova, ou um silêncio que não acolhe, aquela emoção que nunca encontra espaço.
E então, pouco a pouco, começamos a nos adaptar, não porque somos fracos, mas porque somos humanos.
Porque toda criança fará quase qualquer coisa para preservar a conexão com aqueles de quem depende para sobreviver.
Então escondemos partes de nós, guardamos,silenciamos, e seguimos em frente.
O problema é que aquilo que foi escondido não desaparece, permanece ali esperando.
Talvez seja por isso que tantas conquistas parecem não preencher o que imaginávamos.
Não porque elas não tenham valor, elas têm! O amor tem valor. O sucesso tem valor. O reconhecimento tem valor.
Mas nenhuma conquista consegue devolver algo que foi abandonado dentro de nós.
Porque o vazio que sentimos nem sempre é a ausência de algo externo, às vezes é a ausência da nossa própria presença, e isso aparece de formas muito sutis: quando alguém pergunta o que você quer e você não sabe responder, quando você cuida de todos ao redor, mas não consegue perceber do que precisa, quando receber ajuda parece desconfortável, quando um elogio gera constrangimento, quando você passa tanto tempo funcionando que esquece como é simplesmente existir.
E não, isso não é ingratidão, ou fraqueza e nem mesmo falta de fé.
É o resultado de adaptações que um dia fizeram sentido, estratégias que ajudaram você a pertencer e que talvez já não sejam mais necessárias hoje.
A parte bonita dessa história é que aquilo que foi escondido não está perdido, está só esperando SEGURANÇA.
Porque quase tudo o que foi silenciado dentro de nós não precisa ser consertado, mas sim REENCONTRADO. E esse reencontro raramente acontece de forma grandiosa.
Ele acontece nos detalhes quando você percebe uma emoção e não corre para abafá-la, quando diz um "não" sem culpa, quando reconhece um desejo antes de perguntar se ele é aceitável, quando recebe amor sem sentir que precisa merecê-lo, quando começa, aos poucos, a ocupar espaço dentro da própria vida.
Talvez seja isso que chamamos de voltar para casa…não uma casa física, mas aquele lugar interno onde já não precisamos escolher entre sermos amados e sermos quem somos.
Por isso, hoje, a pergunta que mais me acompanha não é:
"O que está faltando na minha vida?"
Mas sim:
"Que parte de mim ficou para trás enquanto eu tentava me adaptar?"
Porque muitas vezes o vazio não é um sinal de que falta alguma coisa lá fora, mas um convite para voltar e buscar quem ficou esperando por nós no caminho.
E, quando penso nisso, eu me permito pensar que:
O vazio não é quem você é, é apenas o espaço que existe entre quem você precisou se tornar para sobreviver e quem você nasceu para ser.



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