top of page

Revitimização - quando a criança conta e o mundo não sabe receber


Ela contou uma vez. Para a professora, na saída da escola, quase em segredo. Palavras pequenas, incompletas, ditas de lado, como quem abre uma fresta e espera ver se é seguro abrir mais.

A professora ficou em choque. Chamou a coordenadora, a coordenadora chamou os pais, os pais chamaram a criança de volta para explicar, a criança explicou, alguém ligou para a delegacia. 

Na delegacia, perguntaram tudo de novo, no hospital, perguntaram tudo de novo. No conselho tutelar, perguntaram tudo de novo

Em algum momento, a criança parou de falar.

Não porque mentiu, não porque esqueceu, mas porque cada vez que abriu a boca, o mundo desabou um pouco mais e ninguém pareceu conseguir segurar o peso sem devolvê-lo para ela. Isso tem nome.


Chama-se REVITIMIZAÇÃO!


O que é revitimização e por que ela ainda acontece dentro da rede

Revitimização é quando a criança que sofreu violência é submetida, repetidamente, a situações que reativam o trauma. Perguntas invasivas feitas por pessoas despreparadas. Relatos exigidos sem suporte emocional. Confrontos com o agressor sem proteção. Dúvidas sobre o que ela disse. Silêncios que comunicam que ela deveria ter ficado calada.

A Lei 13.431/2017, conhecida como a Lei da Escuta Protegida, foi criada especificamente para evitar isso. Ela define dois procedimentos distintos que muita gente ainda confunde:

A escuta especializada é feita pela rede de proteção (CRAS, assistente social, professores…) e seu objetivo é acolher, não investigar. Não tem valor de prova judicial. A criança não precisa recontar tudo em detalhes, precisa ser recebida com segurança. 

O depoimento especial é feito pelo sistema de justiça, em sala adaptada, gravado, conduzido por profissional capacitado. Tem valor de prova. E a criança o presta uma única vez.


Uma vez. Só.


Toda vez que alguém fora desse fluxo exige que a criança reconte, seja o professor, o médico, o parente, o policial despreparado, está causando um novo dano. Não por má intenção, mas por desconhecimento de um protocolo que existe e que deveria ser universalmente conhecido por qualquer adulto que trabalha com criança.


O que a pesquisa mostra — e o que isso tem a ver com formação

A Prof.ª Dr.ª Shayane Lopes, em sua pesquisa sobre educação sexual e prevenção ao abuso na formação de professores, aponta um dado que ilumina o problema na raiz: os cursos de licenciatura no Brasil não preparam os futuros docentes para lidar com revelações de violência. Nenhum dos cursos mapeados, em cinco regiões do país, incluía, de forma sistemática, conteúdos sobre escuta adequada, fluxo de proteção ou prevenção à revitimização.

Isso significa que o professor que está na ponta, aquele que a criança escolheu para contar,  chegou até ali sem saber o que fazer com o que está ouvindo.

E quando não se sabe o que fazer, faz-se o que parece lógico: pergunta mais, chama os pais, tenta resolver. Tudo isso com as melhores intenções. E tudo isso pode fechar a única janela que aquela criança abriu.

Há ainda um dado clínico importante: crianças raramente fazem revelações completas de imediato. Primeiro testam. Contam algo menor, observam a reação. Se a reação for de pânico, de descrença, de colapso ou de imediatismo, a criança fecha. O que viria depois, não vem mais. A forma como o primeiro adulto recebe a revelação determina, em grande parte, o que acontece com tudo que vem depois.


O que fazer e o que nunca fazer

Quando uma criança revela algo, o adulto que recebe esse relato tem uma única responsabilidade naquele momento: acolher sem investigar.

Isso significa: 

  • Acreditar: não questionar a versão, não pedir detalhes, não confrontar. A criança não mente sobre abuso, e mesmo quando a memória é fragmentada, isso é esperado, não suspeito. 

  • Não demonstrar pânico: a reação do adulto regula a reação da criança. Se quem ouve desmorona, a criança aprende que o que ela carrega é grande demais para ser suportado e fecha.

  • Não chamar os pais imediatamente: quando o agressor é familiar, e na maioria dos casos é, chamar os pais antes de acionar a rede pode expor a criança ao perigo imediato e destruir qualquer chance de proteção.

  • Acionar o Conselho Tutelar: é ele quem recebe a comunicação, aplica as medidas de proteção e articula o fluxo. Não é a escola. Não é o hospital. Não é a família. É o Conselho Tutelar, e qualquer pessoa pode e deve fazer essa comunicação, como determina o Artigo 13 do ECA.

  • E depois, acompanhar: a criança que revelou precisa saber que o adulto que a ouviu não sumiu, não ficou diferente com ela, não a trata como um caso. Continua sendo gente. Continua sendo segura.


Por que isso me importa de um jeito que vai além do técnico

Eu fui uma criança que não encontrou adultos preparados.

Não porque as pessoas ao meu redor fossem más. Mas porque ninguém sabia o que fazer com o que eu poderia ter dito - se tivesse tido palavras. Se tivesse tido alguém que parecesse capaz de receber.

A revitimização não precisa ser intencional para fazer mal. Ela acontece toda vez que o sistema que deveria proteger exige da criança mais do que ela pode dar. Toda vez que a rede falha por desconhecimento. Toda vez que uma lei existe e não chega até quem mais precisa dela.

Eu não tive essa rede.

É por isso que o Instituto Educar é Proteger existe: para que menos crianças precisem passar pelo que passei antes de alguém finalmente saber o que fazer.


Uma última coisa — para quem está lendo e se reconhece

Se você cresceu tendo que recontar, tendo que provar, tendo que convencer adultos de que o que aconteceu com você era real: saiba que o problema NUNCA FOI VOCÊ.

Foi a rede. Que não estava pronta. Você estava certa em abrir a boca. Mesmo que ninguém tenha sabido segurar o que você trouxe.

E se hoje você é o adulto que está do outro lado - o professor, o pai, a mãe, o profissional - agora você sabe o que fazer.


Acolher primeiro. Sempre.


Se você suspeita que uma criança está em situação de violência, comunique ao Conselho Tutelar do seu município. Qualquer pessoa PODE E DEVE fazer essa comunicação.


Referências

LOPES, Shayane França. Pós-graduação ESEPAS — Educação Sexual, Emocional e Prevenção ao Abuso Sexual. Material didático de curso de pós-graduação. 2025.


 
 
 

Comentários


bottom of page